Posts Tagged ‘Parreira’

Sorria, você está sendo monitorado!

23/06/2010

Todo mundo viu. Quem não viu, explico. Final do jogo entre África do Sul e França, na primeira fase da Copa do Mundo de 2010. A partida ficou em 2 gols a um, África do Sul venceu.

Seu técnico, o brasileiro Carlos Alberto Parreira foi à área reservada do time francês e estendeu a mão ao técnico Raymond Domenech, um protocolo comum entre técnicos e jogadores. Domenech, ao ver quem o chamava, recusou-se a entregar a mão, a cumprimentá-lo. Parreira não se conformou e argumentou por uns 30 segundos para tentar entender a negativa. Domenech apenas meneava a cabeça e levantava o dedo indicador, balançava-o e fazia o sinal de negativo.

Inconformado, Parreira foi até o vestiário da França e ouviu de um dos assessores a informação de que Domenech não o perdoava por causa de uma declaração concedida por Parreira à imprensa meses atrás em que dizia que “a França não merecia ter se classificado para disputar a Copa do Mundo” (talvez por causa do gol de mão do atacante Thierry Henry). Parreira se fez de rogado e disse não ter se lembrado desta declaração.

Idem em relação ao técnico Dunga. Acusem-no ou não de que é turrão, mal humorado ou rancoroso o fato é que o técnico brasileiro é outro que não esquece das reportagens e comentários dos jornalistas esportivos – jornalistas que escrevem com o sangue quente do momento, imparcialidade mínima, com resultados previsíveis.

Como estes técnicos sabem de tudo, acompanham as reportagens? Os especialistas em comunicação utilizam-se de várias ferramentas para o monitoramento das notícias publicadas, sendo que a mais conhecida é o “clipping”. Do inglês, “to clip´”, recortar, trata-se de um serviço desenvolvido por empresas especializadas que contratam “leitores” (estudantes, aposentados etc.) que lêem todos os jornais e revistas impressas, recortam as matérias em que a empresa é mencionada, digitalizam as reportagens e as enviam aos seus clientes. Há também robôs (softwares) que identificam as palavras-chave das matérias impressas. São os leitores de OCR, mas que apresentam uma série de falhas. Aliás, este é um processo que apresenta vários erros, não sendo incomum que menções em matérias de veículos de grande repercussão passem despercebidas por ambos os leitores.

Para complicar veio a Internet. A digitalização dos meios – tudo agora é zero e um – tornou possível a distribuição de conteúdos através das redes, que fluem para todos os lados – rios e montanhas de informações em busca de mentes agudas. As novas plataformas e mídias sociais – como Facebook, Twitter, Orkut, sem falar em agregadores de conteúdo como o Google – amplificam os conceitos e preconceitos dos usuários, que querem e gostam de se manifestar, enquanto uma grande maioria silenciosa quer ouvir, ler (mais de 90% de todo o conteúdo do Twitter é gerado por menos de 10% de usuários, os “net” ativistas).

Estas informações são todas monitoradas. Nós mesmos aqui na Art Presse lançamos uma nova empresa – a 140 (www.centoequarenta.com.br) – que monitora as marcas e desenvolve estratégias de diálogo com os usuários ativos.

Lembro-me dos tempos da ditadura, nos anos 70, quando ouvia falar nas famosas “fichas” do DOPS, órgão de controle da ordem social e política. Este órgão monitorava cidadãos considerados subversivos pelo regime militar. O sistema era todo analógico, à base de maquina de escrever e fichas que continham os dados objetivos (nome, sobrenome, idade, naturalidade, altura, tez etc.) e subjetivos (“mencionou movimentos operários em artigo publicado no jornal Opinião”, “tem tendências esquerdistas” …).

O monitoramento na era da Internet pode ser caracterizado por dois aspectos importantes: 1) é contabilizado, tudo é quantificado e é 2) “rastreável” (coloco em aspas porque o meu processador de textos me informa que esta palavra é um neologismo).

Hoje qualquer gestor de marcas ou mesmo técnicos como Carlos Alberto Parreira tem de saber exatamente o que comunicam, pois tudo o que falam será registrado – em clipping, monitoramento ou um simples Google, entregues por ciosos assessores de comunicação. Caso contrário, terão de amargar negativas desagradáveis como as enfrentadas pelo brasileiro ao cumprir um protocolo tolo. Sorriam e sejam bem vindos ao admirável mundo novo do big brother digital.