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O Media Training vai à Guerra

28/06/2010

Sem ter sido abatida por um único tiro, as Forças Armadas dos EUA sofreram o pior revés de sua campanha no Afeganistão na história recente. O general Stanley McChrystal, chefe das forças americanas e da OTAN naquele país foi alvejado por suas próprias declarações, expressas ao jornalista Michael Hastings, do jornal Rolling Stone.

Na reportagem “The Runaway General” (algo como “O General Fora de Controle”, publicada em 22/6/2010, veja aqui http://www.rollingstone.com/politics/news/17390/119236 disse uma série de impropriedades sobre o presidente Barack Obama e criticou a forma com que este vem conduzindo a política nesta região do mundo.

Howard Kurtz, do Washington Post (republicado pelo Estadão em 27/6/2010), mostra que o repórter Michael Hastings obteve o material graças a uma competente estratégia de estar ao lado do general por várias semanas, acompanhando-o em várias situações, inclusive rodadas de bebidas e encontros informais. Ou seja, o material da reportagem não foi conseguido após uma entrevista “formal” – foi resultado de um intenso relacionamento entre o repórter e o general.

Vários aspectos me chamaram a atenção neste episódio. Primeiro é o veículo que gerou a notícia – um jornal de música e comportamento (e entrevistas e política, como informa o site brasileiro da revista), cuja idade média do leitor (reforça Kurtz) é de 30 anos. O dono da publicação, Jann Wenner, é um claro apoiador do presidente Barack Obama e confesso democrata (ele mesmo contribuiu financeiramente com a campanha). A segunda é o fato de que a escola americana de guerra é famosa por preparar uma elite de combatentes, cujos generais são conhecidos por sua capacidade intelectual e treinos que beiram a capacidade de resistência física e moral, preparatórios para situações em que o soldado é preso e torturado pelos inimigos. É concebível pensar que McCrystal foi abatido por “fogo amigo”, por um repórter de uma publicação de comportamento?

O general McCrystal é tido como um homem de fala franca, cheia de palavrões e extremamente capaz. Um guerreiro, um comandante tresloucado, uma pessoa muito rígida (dorme apenas quatro horas e só faz uma refeição por dia). O erro – além da soberba dos guerreiros – foi ele ter se deixado envolver em situações de off (off the Record, que significa um comentário ou declaração emitida no momento em que o gravador do repórter está desligado, onde o entrevistado pede para que o comentário não seja publicado) com o repórter Hastings.

O que mais me chama a atenção, no entanto é o fato de o general (e seus assessores) não ter seguido à risca o treinamento de mídia , que chamamos comumente de “media training”.

Sou conhecido pelo rigor com que aplico estes treinamentos aos meus clientes. Organizo estas sessões como se fossem “jogos de guerra”, onde os repórteres iniciam as entrevistas com agressividade bem acima do normal, como se os entrevistados fossem réus, culpados por alguma explosão em um shopping ou pela falta de manutenção de um brinquedo que tenha causado algum acidente grave. Já corri risco de perder (se não as contas que atendemos) o acesso a alguns importantes executivos pela forma com que conduzo estes treinamentos.

Nestes treinamentos costumo dizer que comunicação é a “política do óbvio”. Ou seja, não se expõe nunca suas opiniões publicamente quando se trabalha em uma empresa ou corporação (como as Forças Armadas). O nome da função do entrevistado – porta voz (spoke Person ou “mouthpiece”, conforme o texto original da Rolling Stone) – resume bem a sua qualificação. Procuro reforçar a diferença entre ser um pensador, um profissional liberal (que vem do latim e significa “livre”) e um contratado das empresas ou um general (nunca fui chamado pelas Forças Armadas, ainda). Neste caso, deve-se observar a hierarquia e o alinhamento com os visões e posicionamentos de seus superiores antes sempre de dar declarações públicas. E não emitir opiniões pessoais.

Aliás, vale aqui uma distinção entre o que é público (que é do interesse do povo) e o que é privado (do interesse pessoal, particular). Por que um general formado em West Point  fraquejou em um momento em que toda a sua experiência e treinamento deveriam fazer a diferença?

Muitas vezes alguns jornalistas acreditam estar imbuídos de uma espécie de missão divina. Nestes 30 anos conheci vários grandes repórteres, mestres na arte da incisão cerebral, capazes de extrair declarações surpreendentes. Eventualmente, executivos com quem eu trabalho não entendem este tipo de atitude. Explico-lhes sempre que estes guerreiros de canetas e gravadores atuam em um mercado de comunicação extremamente agressivo, são extremamente profissionais nesta arte que envolve uma intricada indústria de planejamento, impressão (ou “postagem”), distribuição e marketing.

O que quero dizer que neste lado da batalha não há “certos” ou “errados”,  santos ou diabos, mas personagens que devem exercer as suas funções com o máximo preparo, em tempos de paz ou de guerra. Os melhores, os mais treinados e preparados, estarão aptos a vencer as batalhas – e quantas batalhas um homem pode vencer em uma vida?

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