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O círculo imperfeito

10/12/2009

Os “agregadores de conteúdo” – como o Google, Yahoo e o Bing – são sistemas tecnológicos contemporâneos que nos auxiliam diariamente no processo de busca de informações úteis e práticas. Estes agregadores, no entanto, também têm sido utilizados de maneira danosa por alguns jornalistas brasileiros, principalmente aqueles afeitos à superficialidade e à falta de cuidado na apuração das informações.

O Google e outras empresas têm oferecido um modelo de negócios chamado “cloud computing”, algo como o oferecimento de uma série de serviços de softwares e armazenamento de dados remotamente. Estas empresas se comprometem a resguardar arquivos pelo menos por 10 anos. Lê-se “arquivos” como tudo aquilo que foi trafegado pelas máquinas – de emails enviados e recebidos a páginas de blogs e sites.

A busca pela perfeição, pela catalogação do conhecimento e abrangência do conhecimento são tentações antigas. O homem precisa de sistemas que o auxiliem na sistematização das informações na medida em que é impossível um só homem abarcar os principais processos de conhecimento. No passado foram criadas as enciclopédias, do  grego, eu-kuklos-paidea – o “círculo perfeito do conhecimento ou da educação”. No presente há a Wikipedia, de wiki, de rápido.

Isto tudo é ótimo mas tenho acompanhado aqui na Art Presse um fenômeno curioso. Jornais do interior do país publicam matérias do tipo “denúncia”, muito bem produzidas e repletas de citações e fontes. Em uma primeira leitura, fazem todo o sentido e nos levam , inclusive, a rapidamente tomarmos partido contra este ou aquele sujeito que foi foco da matéria.

Recentemente um destes jornais, bem pequenos mas com influência regional, publicou uma matéria negativa envolvendo um cliente que atendo. Fomos atrás para entender como e porque aquele tipo de reportagem foi produzida, métodos de apuração e – mais importante – por que não nos procuraram. A resposta: pesquisamos tudo no Google! Ou seja, o Google passou a ser a “fonte” destes “jornalistas”!

Há um fenômeno em comunicação que chamo de “bola de neve”. Significa o seguinte. Um jornalista publica uma matéria polêmica. Independente da matéria ter ou não fundamento, o assunto em questão é publicado por um outro jornalista, que cita a fonte (isso se chama tecnicamente de “pick up”), dando a devida chancela e ajudando a propagar a polêmica. Reputações podem ser destruídas rapidamente em função do poder da mídia. A comunicação via imprensa detona emoções, raivas, alegria, destemperos, ódios.

Situações como essa tem mudado, radicalmente, a vida e as atividades das agências de RP e assessoria de imprensa. Um dos instrumentos mais importantes de análise (“desk research”) e monitoramento das marcas, empresas e pessoas sempre foi o chamado “clipping”. Este serviço consiste na leitura, classificação e recorte de uma notícia publicada em um veículo impresso. Após este trabalho, os recortes são analisados e enviados aos clientes.

Nos últimos anos, o trabalho de monitoramento das notícias tornou-se mais complexo, muito mais interessante e produtivo com o surgimento da Internet. Agora, as empresas que realizam este tipo de trabalho – as clipadoras – podem enviar as notícias em formatos eletrônicos e catalogados.  E mais: esta tarefa ficou mais complexa porque agora, além da mídia “tradicional”, há também o monitoramento do mundo digital, muito maior, variado e com enorme número de agentes. 

“Novas mídias” apareceram no radar das agências – desde a imprensa online, aos portais de sites (como o UOL, Terra, Ig, Globo.com), portais de notícias (G1, R7 etc.), redes sociais, fóruns e blogs. E, claro, há os “agregadores de conteúdo”, como explicado acima.

Curiosamente, o mesmo Iluminismo que produziu a luz das enciclopédias também produziu a treva. Um dos livros que mais me impactaram na adolescência foi “Bel Ami”, de Guy de Maupassant. Neste livro, vemos que os jornais eram produzidos basicamente como instrumentos de captação de dinheiro, anúncios e comissões, sendo que a notícia era apenas um ingrediente de achaque ou pressão. Algo parecido com que já havia lido em “Ilusões Perdidas”, de Honoré de Balzac, que também mostra o lado podre do jornalismo político.  

Mais uma vez as agências de RP e imprensa serão chamadas para administrar este tipo de crise indelével – matérias produzidas a partir do nada, do etéreo, do virtual. Situações que mancham reputações, de pessoas inocentes a pessoas nem tanto.

Agora sabemos que as notícias negativas estarão sempre por lá, nos “agregadores de conteúdos”, por décadas conspurcando e vilipendiando. Conceitos técnicos como esses são bonitos e vendedores mas luzes amarelas  – sempre elas! –  acendem um perigoso círculo imperfeito para todos aqueles que trabalham nesta área.