Posts Tagged ‘Blogs’

A revolução permanente

26/03/2010

“Quem quer publicar a sua opinião que tenha o seu próprio jornal”, dizia Assis Chateaubriand (leia o livro “Chatô, o Rei do Brasil”, de Fernando Morais, Cia. das Letras). Para os iniciados no assunto, Chateaubriand foi o Roberto Marinho dos anos 40 aos 60, do século XX. Um gênio do mal, diferentemente do Roberto Marinho, que construiu um grande império de comunicação de maneira absolutamente profissional.

Chateaubriand encarnava uma versão coronelista de produzir informação – inventava, achacava, fazia o diabo para conseguir o que queria. Fez muito pelo país também, o MASP é um exemplo disso. Trabalhei durante muitos anos com o Antônio Athayde, filho de Austregésilo de Athayde, o “Caboclo”, braço direito de Chateaubriand. Ele me disse que Chateaubriand era, de fato, um gênio, uma pessoal difícil, mas um empreendedor.

Ricardo Ramenzoni, cujo pai era um industrial, dono da maior fábrica de chapéus do Brasil, em uma época em que todo o cidadão utilizava este acessório, me disse que seu pai foi ameaçado várias vezes pelos “capangas” do Chateaubriand para “colaborar” com as suas empresas jornalísticas, na forma de anúncios e doações para compras de quadros. Ricardo me disse que seu pai nunca colaborou, tendo sido vítima de matérias e campanhas difamatórias. Por sorte, seu pai era muito rico e poderoso e conseguiu sobreviver.

Fiz todo este intróito para dizer que estou um pouco incomodado com as cobranças de amigos para atualização deste meu blog, que versa sobre comunicação corporativa. Há uma visão de que os blogs devem ter atualizações constantes, para terem “relevância”, para chamarem atenção. Nesta visão, os blogs mais relevantes são aqueles que têm mais atualizações – uma vez, duas vezes por dia. Pergunto: blogs assim devem conter informações, competindo com as mídias comerciais, que vivem disso.

Blogs são instrumentos de comunicação mantidos por pessoas cujas fontes de renda são diversas daquelas da comunicação. Se mantidas por jornalistas devem ser uma extensão de seus trabalhos (em caso de blogs abrigados em sites ligados a veículos de comunicação) ou complementares a seus trabalhos, com visões mais pessoais, opinativas. Este blog, Doutor Spin, é um espaço para reflexão – não um espaço para informação. Inspiro-me no contrário da posição de Chateaubriand: quem tem opinião deve ter um blog, e não um jornal. Não me refiro à opinião dos “140” caracteres, que ao invés de transmitir a síntese de pensamentos elaborados transformou a Internet – redes sociais e blogs – em um bacanal de opiniões mal ajambradas, desconexas, rasas. Por vezes muitíssimo divertida.

Fui integrante ativo da “Libelu”, movimento esquerdista estudantil da década de 70, inspirado nas idéias de Leon Trotsky, que pregava a “revolução permanente”. Meu pai, que também teve um passado de ligação política, tinha discussões acaloradas comigo. Ficava incomodado com o meu esquerdismo. Me dizia que todo o movimento político, no fim, visa o poder. Não importa a essência da discussão, o que é certo ou errado, mas quem manipula quem. Lógico que eu o achava um reacionário, um retrógrado na época.

Ele estava certo, toda a ideologia é uma forma de manipulação e projeto de poder. E que todo o poder corrompe. Finalizando, deixo o seguinte recado para os amigos. Não esperem aqui regularidade. Peçam apenas para que eu entregue alguma coerência e consistência nas reflexões. Fui.

Blogueiro não é jornalista, pô!

02/03/2009

Pois é. Primeiro escrevem informando que blogueiro não é jornalista. Agora, o óbvio. Que os blogs não têm relevância (vejam abaixo matéria publicada hoje, 4/12/2008, na Gazeta Mercantil, com o título “Estaríamos assistindo ao fim dos blogs?”). Concordo com tudo, menos com um fato.

Que relevância tem publicar livros, coletâneas, contendo os “diários” de todas as pessoas do mundo? Por que apenas alguns diários ganham relevância?

Porque são diários de artistas, escritores, políticos, enfim, celebridades. Ou de pessoas que vivem ou viveram no limite da existência – desde aventureiros a gente como Anne Frank (quem não leu seu livro e conheceu os horrores dos Pogroms, da barbárie nazista?).

O problema não é a quantidade de blogs. É a pobreza do conteúdo destes blogs. Lembro do filósofo Olavo de Carvalho, autor do livro “O Imbecil Coletivo”. Assistimos à imbecilização coletiva, expressa em blog. Os medíocres achavam que ganhariam espaço, fama, poder. Mas cadê o talento, cadê as idéias, cadê o processo investigativo, próprio do saber filosófico?

04/12 – 01:01

Estaríamos assistindo ao fim dos blogs?

4 de Dezembro de 2008 – Li o artigo de Paul Boutin (Kill Your Blog), na última edição da revista “Wired”, não apenas como profissional da área, mas como blogueira provocada: matar meu blog? Por quê? É cool? Tendência? Onde eu me perdi? Pois ele me convenceu Ele diz que os blogs perderam o encanto. O que fez com que explodissem, em meados de 2004, já não exerce fascínio. Naquela época, ao fazer uma busca no Google, um blogueiro desconhecido surgiria em primeiro lugar, antes da mídia. Agora, wikipedia e blogs corporativos, feitos por pessoas pagas para escrever, estão no topo. Blogs estão se profissionalizando, vitimados por marketeiros, tornando-se ferramentas-chave para a comunicação das marcas com seus públicos.
Assim, blogueiros veteranos largaram desta vida. Passaram a escrever em grupos fechados de e-mail para falar de algo mais profundo ou complexo, e utilizar o Twitter para semear idéias de 140 caracteres. Facebook e Orkut servem de apoio, por meio de seus grupos e comunidades, Flickr e YouTube para expressões visuais. Tais recursos podem ser adicionados a blogs hoje e, segundo Boutin, isso desvirtua a ferramenta de sua função inicial: permitir que até leigos no mundo digital conseguissem escrever em um espaço simples com interface amigável.
Refletindo sobre isso e o fato de as redes sociais estarem em voga, minha conclusão é velha: vivemos tempos de mudanças extremamente rápidas. Nada novo. Mas mesmo sabendo disso, vemos estas mudanças com olhos lentos e viciados em outras percepções. Sendo mais clara: blogs surgiram com pessoas assumindo o poder da voz, de opinar, dar furos, compartilhar idéias. Errados os que pensaram que isso pararia por aí.
Se sua explosão como veículo de comunicação foi grande, natural que se tornassem alvo de marcas, planejadores e mídias. E com isso, seu conteúdo passa a ser parcialmente controlado por quem está pagando. Logo, a função inicial do blogueiro é desvirtuada, e ele busca refúgio para seus anseios em outros “veículos”, que por sua vez, já estão se tornando alvo também. É cíclico. Aqueles blogs que conhecemos há anos podem merecer morrer, se assim o público pedir: se pararem de ler, de comentar, de alimentar esta ferramenta. Mas eles são uma nova linha nos planos de mídia, não? Se transformaram.
E se não ficarmos atentos a este tipo de mudança de função e de formato, continuaremos escrevendo sobre mortes e nascimentos de ferramentas como se elas fossem meramente os fins encontrados para expressão, e não meios de geração de conteúdo que se modificam conforme a conversa gerada muda, de acordo com a evolução da interação. Marshal McLuhan falava dos meios de comunicação como extensões do homem. Hoje, vivemos a maior prova disso. Homens se expressando cada vez mais rapidamente através de meios que mal temos tempo de conhecer. E nos incomoda não termos políticas de atuação e de remuneração claras.
Pergunto: qual será o futuro próximo do Twitter, que tem sido aclamado como substituto aos blogs? Como trabalhar uma marca, por minuto, neste ambiente? O exercício deve ser feito a partir da compreensão da necessidade que gerou a ferramenta e de como ela tem sido vista por aqueles que comunicam marcas – nós. Não somos predadores das tecnologias, e sim aproveitadores de oportunidades, no bom sentido.
Ainda acredito que nada se cria, tudo se transforma. Bem-aventurado o que conseguir antecipar esta transformação; ou, pelo menos, acompanhá-la à altura de sua agilidade.
(Gazeta Mercantil/Caderno C – Pág. 5)(Silvia Curiati – Diretora de planejamento da OgilvyInteractive e blogueiraE-mail: silvia.curiati@ogilvy.com)