Olimpíadas: a importância do RP na escolha do Rio 2.016

05/10/2009

Mágica é efeito sem causa, me lembra o meu sócio Oswaldo Pepe. Nesta linha, a vitória do Rio de Janeiro não tem nada de mágico. Trata-se de um efeito combinado de um planejamento consistente e de uma série de ações de comunicação. Uma vitória inconteste e madura que foi guindada pela área de Relações Públicas, em todas as suas dimensões, como aqui se verá.

Primeiro vamos às considerações iniciais. Mágica, se houve, foi a feliz combinação de interesses políticos entre os poderes – federal,  estadual e municipal, algo raro em se tratando de algo com tanto potencial de exposição.

Outro assombro: pela primeira vez não vejo a presença de um publicitário que tenha galvanizado a atenção em torno de uma estratégia de comunicação vapt-vupt, baseada em ações relâmpagos, 30 segundos, páginas de anúncios de sonhos inconsistentes.

Esta sim foi uma ação de RPs , de especialistas em estratégias de comunicação sólidas, baseada em planejamento, relacionamento e endereçamento de mensagens para diversos públicos – a começar pelo público prioritário (os membros do Comitê Olímpico Internacional-COI), públicos secundários (influenciadores do primeiro time), imprensa e opinião pública.

Como então convencer a todos (inclusive nós, brasileiros) que a cidade do Rio de Janeiro pode receber um milhão de turistas, sabedores de que é uma cidade repleta de problemas, extremamente insegura? É quase inconcebível saber que a cidade que ficou conhecida recentemente por filmes como “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e “Ônibus 174”, tenha conseguido superar cidades como Tóquio, Chicago e Madrid.

Trata-se na minha opinião de um exemplo clássico de ação de RP, de fazer inveja à Edward L. Bernays, o pai da matéria. Vejam adiante quais são os pontos que considero muito importantes na consideração de que a vitória da candidatura do Rio de Janeiro dos Jogos Olímpicos de 2.016 foi antes de tudo uma conquista alcançada com o auxílio de especialistas em comunicação estratégica, ou RPs:

Argumento: a cidade do RJ apresentou um argumento extremamente fácil de ser entendido por todos, universal.  O de levar os Jogos Olímpicos, pela primeira vez, à América do Sul. Isto é o que Bernays chamava de “big think”, que traduzo aqui (livremente) como “idéia matadora”

Comunicação: o COB contratou especialistas no assunto. O mais lembrado é o inglês Mike Lee, responsável pela conquista de Londres, para os jogos de 2.012. Ele entendeu a necessidade de uma combinação de um “empacotamento” vendedor mais a necessidade do trabalho de relacionamento com os integrantes do COI. E isso foi feito de maneira muito competente, pelo que se depreende de uma leitura atenta dos jornais e revistas.

E mais: a campanha envolveu vários artistas e produtores. Soube pelo jornal O Estado de S. Paulo (“Cinema, uma arma brasileira”, pag. H7 do especial de 3/10/2009) que o Comitê Olímpico Brasileiro-COB escolheu a agência O2, do cineasta Fernando Meirelles (diretor do mesmo “Cidade de Deus”, que mostra um Rio de Janeiro de favelas, corrompido … doce ironia!) para desenvolver a série de filmes que foram apresentados aos membros do COI. Fernando reuniu outros talentos como Renato Rossi, César Charlone, Nando Olival, Paulinho Caruso e Rodrigo Meirelles, todos comandados pelo consultor Scott Givens, da agência Five Currents, americana. Foram produzidos uma série de filmes de uma Rio de Janeiro linda, cinematográfica, sem pobreza, de acordo com o que li. Mas, pergunto, qual seria o sentido de se mostrar algo além disso?

Engajamento&relacionamento: houve um envolvimento de todos em torno de uma causa que relevaram rusgas ou desconfortos. Um presidente de um grande clube de S. Paulo me disse que o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, é uma pessoa muito inteligente, que sabe trafegar em altas todas mas de difícil trato e que não dá importância e repasse de verbas aos clubes, que são os autênticos celeiros de atletas.  Especialistas me dizem da difícil convivência do ministro dos Esportes, Orlando Silva Jr, com o Nuzman, que também não se dá com … etc. Mas todos superaram estas diferenças e trataram de trabalhar em busca do objetivo comum.Coordenados por Mike Lee, todos os integrantes brasileiros fizeram a sua parte, conversando e convencendo os membros de maneira pessoal, face a face. É assim que se ganham batalhas de comunicação, falando diretamente com os envolvidos.

Eventos: a campanha dos Jogos Olímpicos foi coroada com a presença de personalidades no dia do evento. A começar pelo presidente Lula, que tem um carisma inegável, que goza de empatia e admiração de todos (um presidente operário, que venceu na vida, quase um “schreck”, simpaticão). Houve a presença do “rei” Pelé, do escritor Paulo Coelho, um dos autores mais lidos do mundo. Ora, dirão, os outros candidatos também desfilaram personalidades por Copenhagen, em um ambiente eminentemente europeizado, que dá valor à tradição, à respeitabilidade. Por lá, apareceram desde políticos (o primeiro ministro japonês, Yukio Hatoyama, o presidente Barak Obama) à nobres, como o rei Juan Carlos, da Espanha. O presidente Obama, no entanto, teve pouco tempo para realizar o corpo a corpo necessário para uma mudança esperada pelos norte-americanos.

 E não só: a campanha pelos Jogos Olímpicos no RJ reuniu a realização de uma série de outros eventos, como a recepção cuidadosa dos membros do COI à cidade em várias ocasiões.

 Investimento&Valor: não se faz bom RP sem dinheiro. Os investimentos realizados pelo governo brasileiro (mais iniciativa privada, como o Grupo EBX, de Eike Batista) variam de 50 a 80 milhões de Reais, como se supõe pela leitura de vários jornais. Mais uma vez houve uma confluência de interesses dos diversos poderes – Lula, Sérgio Cabral, Eduardo Paes, COB e empresas – que levaram a sério a iniciativa e bancaram o projeto.

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8 Respostas to “Olimpíadas: a importância do RP na escolha do Rio 2.016”

  1. Niobe Says:

    Brilhante Ricardo. A sensação é que houve uma rara confluência astral e que todos (talvez a mágica inversa de babel seja essa) passaram a falar uma mesma língua. Tantos outros projetos poderiam se beneficiar desse “alinhamento dos planetas”, não?

  2. fernandaeva Says:

    Meu Deus que bom ler seu texto. Esclarecedor para mim que estou voltada apenas as questoes primordiais da arte. Bacana adorei suas informaçoes e visao, parabens!


  3. Excelente texto. A campanha conseguiu simbolizar o diferencial que poderia nos levar à vitória: belezas naturais, o povo, a alegria, o desejo, a força de vontade.

    MATEUS


  4. Caro Ricardo, vc foi preciso no ponto. Cheguei aqui pela dica do Pepe, um grande cara que conheci nos últimos tempos.
    Parabéns.
    Vou colocar vocês no blogroll.
    aBração
    Rodrigo

  5. Daiane Says:

    olimpiadas 2016 – uma ação política do governo com ajuda impressindível da comunicaçao

  6. Lucas Crivelari Fortes Says:

    Boa noite, estou fazendo meu tcc sobre este tema e gostaria de saber qual a fonte das informações citados no texto.

    Agradeço desde já e parabéns pelo excelente texto.

    Abraços

    Lucas Crivelari Fortes

    lcrivelari@gmail.com

    • doutorspin Says:

      Lucas, este é um blog de reflexão sobre a área de comunicação. Cito aqui várias fontes, principalmente Edward L. Bernays. Abs,


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