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A opinião pública tem opinião?

25/04/2009

Primeiro vou falar sobre preconceito. Em 1951, a psicoterapeuta americana Doris Allen reuniu na cidade de Cincinnatti, Ohio, EUA, representantes de oito países para o primeiro Children´s International Summer Village (CISV). Os grupos eram formados por um adulto, que atuava como monitor, e quatro jovens – duas meninas e dois meninos.

 

A idéia desta organização não-governamental (ONG) fora concebida anos antes, em 1946, um ano depois da Segunda Guerra Mundial. E era muito simples: reunir grupos de jovens de todos os países, regularmente, em encontros, acampamentos (ou acantonamentos) e intercâmbios. É muito ativa no Brasil e sucesso em vários países até hoje.

 

A Dra. Allen percebeu que idéias preconceituosas formam-se e solidificam-se a partir do momento em que as crianças fazem 11 anos, época em que iniciam uma mutação violenta e contraditória entre o (doce e aconchegante) lar e a selva das ruas.

 

De repente, o jovem que era acarinhado e protegido por sua família é, abruptamente, humilhado e jogado junto aos seus contemporâneos. Não à toa, pais reclamam da “súbita” mudança, quando estes jovens retornam agressivos e mudados às suas casas, falando expressões e gírias diferentes, com cabelos e roupas idênticos aos seus pares.

  

A criação desta ONG ocorreu, naturalmente, sob o impacto da tragédia recente. Analisado sobre qualquer ponto ou ângulo, a Segunda Guerra Mundial é um assombro em termos quantitativos (60 milhões de mortes) e qualitativos (perseguição racista como política de Estado, algo que se faz hoje no Irã. Refiro a um político populista e fanfarrão, o presidente Mahmoud Ahmadinejad).

 

Doris Allen percebeu que as crianças não fazem guerras nem alimentam preconceitos (até podem ter pois o ovo vem antes da galinha, certo?). Quem os cria – e é capaz de levar nações inteiras à loucura – são governos e famílias, algo que é muito enraizado e de difícil equação.

 

A solução apresentada pela Dra. Allen foi a prática da globalização, implementada nas crianças/pré-adolescentes, materializada na realização de acampamentos entre grupos (ou tribos?) de diversos países – americanos, japoneses, brasileiros, argentinos, jordanianos, suecos, finlandeses, italianos etc. Não mencionei raças nem religiões acima, por razões óbvias. A convivência observada (e consentida pelos pais) entre estes grupos estimula a tolerância e incita a curiosidade, numa dimensão superior à experimentada pelo cidadão comum, não afeito à diferenças. Posso dizer, como pai de uma cisviana que esta praxis funciona e muito bem.

 

Que tipo de ação poderia fazer um profissional experiente em países como a Alemanha, Itália (e mesmo a França), aonde o preconceito racial chegou a situações extremas, de perseguição à extermínio?

 

As reflexões acima me levam a um ponto delicado, que aflige todo o profissional de Relações Públicas e comunicação, principalmente aqueles que operam em política, com comunidades ou são responsáveis pela estratégia de comunicação de grandes grupos.

 

Trata-se desta entidade genérica e inexata que se convencionou chamar de “opinião pública”.

 

Fraser Seitel, em “The Practice of PR”, dedica um capítulo inteiro ao assunto (“Public Opinion”). Recomendo a sua leitura. Longe de ser um tratado sociológico, Seitel chega à conclusão que a melhor maneira de entender a “opinião pública” é entender primeiro o que é opinião e quando ela se torna pública, ou seja, quando os interesses de vários indivíduos se assemelham para então virar instrumento de influência social ou massa de manobra.

 

Seitel cita Edward Bernays, o grande comunicador, sobrinho de Freud e que para muitos é o verdadeiro criador da atividade de RP: “Opinião pública é um termo impreciso que descreve grupos volúveis e manipuláveis formados por julgamentos individuais”.

 

Para Seitel “público” significa um grupo de pessoas que compartilham interesses ‘comuns em assuntos específicos (“grupos de investidores”, por exemplo).

 

O especialista em RP descreve o processo em três partes distintas – atitude, opinião e ação. Quando as atitudes tornam-se fortes o suficiente, emergem na forma de “opiniões”. A opinião é a expressão de uma atitude sobre um determinado assunto. E quando as opiniões tornam-se fortes o bastante, transformam-se em ações – verbais ou comportamentais.

 

As atitudes galvanizam e encontram o seu ponto de fusão quando encontram seus espelhos, pessoas que também comungam das mesmas experiências, dores, desejos, ambições, medos ou felicidades. Ou seja, o melhor seria chamar o fenômeno “opinião pública” de “atitude pública”.

 

Seitel apresenta estas características, as atitudes, em sete grandes grupos: pessoais (estados emocionais, geracionais), cultural, educacional, familiar, religioso, classe social) e raça. Ele não cita um grupo que acho importante, o demográfico, que sem dúvida pode influenciar uma pessoa (alguém nascido no Alasca tem a mesma atitude de alguém nascido em Guiné-Bissau?).

 

Não serei esotérico e não acrescentarei aqui uma nova categoria de atitude: a provável força (oculta) dos doshas indianos (vatha, pitha e kapha) e da astrocaracteologia, que utilizava os astros como referências aos vários tipos humanos, identificados desde os mestres gregos …

 

Em suma, acredito que é necessário estudar muito, que é preciso acercar-se do maior número de especialistas sobre um assunto, para que se tenha uma opinião formada acerca de qualquer coisa.

 

Sempre me pergunto – e não dá para não ser o mais verdadeiro e honesto para nós mesmos, certo? – se a opinião pública realmente tem opinião. Claro que não, quem a tem é o indivíduo! Em outro post  escrevi que “a massa é burra, quem tem (ou não) inteligência é a pessoa”.

 

Quem já trabalhou em um grande grupo de comunicação sabe que o poder é uma composição de grupos. Estes podem ter mais, ou menos, poder em um determinado momento. Mas todos manipulam e utilizam a (e são utilizados pela) mídia. Ganha quem tem a mensagem (ou apelo) certa, a “cara” certa, no momento certo, para o público certo (se você não sabe o que eu estou falando leia o livro “Fogueira das Vaidades”, de Tom Wolfe ou assista ao ótimo filme, homônimo, de Brian de Palma, ranqueado com 5.1 estrelas – que injustiça!).

 

Agora, o que um bom profissional de comunicação deve fazer quando confrontado por grupos de pressões, formados por pessoas que têm “opiniões” formadas e “sólidas” acerca da marca ou do seu serviço? Ou mesmo preconceitos?

 

A percepção de todos os grandes profissionais de comunicação é que não adianta ir contra a percepção da maioria, ou seja, tentar mudar a opinião destes grupos. Trata-se de uma tarefa insana e inglória, que leva o contendor à exaustão ou ao ostracismo. Uma morte em vida.

 

Os surfistas sabem que não dá para remar contra a maré. É preciso ler o mar, a correnteza, os ventos. A precisa e correta leitura destes elementos posicionam o surfista que poderá habilmente aproveitar as ondas a seu favor. Os políticos – auxiliados por grandes comunicadores – aproveitam-se disso.

 

Os profissionais que trabalham em comunicação devem estar atentos a todas estas leituras para proteger e alavancar a imagem das empresas, uma vez que a muitos não foi lhes dada a faculdade, o dom transformador, de mudar opiniões.

 

Seitel demonstra que uma vez formada uma opinião – ou preconceito – é praticamente impossível transformar atitudes motivacionais. Mas, curiosamente, nos dá uma pista preciosa: a de que a melhor maneira de tentar persuadir alguém é simplesmente entendê-la, ouvi-la, abrir canais de comunicação e interação.

 

Trata-se de um passo minúsculo em um mundo que tem a guerra como continuação da política. Mas é neste momento que nós, profissionais sérios de comunicação, vemos surgir alguma luz que irrompe a escuridão perniciosa do preconceito e das “opiniões”, ou o que quer que seja – estas coisas nefastas, remendos produzidos a partir de trapos de realidade.

 

 

 

É possível reputar a puta

15/04/2009

Há certa beleza em um projeto de comunicação que obtém resultados além dos esperados. O profissional de comunicação habita um mundo diferente, o mundo das ciências humanas, do imponderável. Este profissional sabe que um plano de comunicação consistente considera uma série de possibilidades, que deriva em caminhos divergentes. O intrigante é saber que estas vias muitas vezes podem chegar a um mesmo resultado e oferecer respostas inesperadas.

 

É bem diferente do universo das ciências exatas, onde só há caminhos convergentes, matemáticos, conhecidos. Todos sabem como é difícil convencer um engenheiro em tomar decisões em nossa área. Os exatos não sabem como adentrar em terrenos  desconhecidos. A repercussão, no entanto, habita este universo.

 

E que repercussões pode esperar uma ex-prostituta quando publica a sua vida em livro, além de meia dúzia de trocados e alguma fama?

 

Foi esta pergunta que me fiz ao ficar sabendo pelo jornal Folha de S. Paulo (30 de março de 2009) do lançamento de um livro autobiográfico aqui no Brasil chamado  “Filha, Mãe, Avó e Puta” (Editora Objetiva), de Gabriela Leite. A autora é  presidente da ONG Davida (http://www.davida.org.br/), que promove a cidadania das prostitutas e fundadora da marca Daspu, confecção criada para arrecadar recursos para a ONG.

 

Esta senhora, Gabriela Leite, tem uma vida e tanto e talvez seja hoje a prostituta (“aposentada”) mais famosa do país, autora também de outro livro, que não li, “Eu, Mulher da Vida” (Rosa dos Tempos), que diz  à repórter Nina Lemos, responsável pela reportagem deste jornal, ter “ainda saudade do passado”.

 

Fiquei intrigado: por que uma ex-puta como ela ocupa um lugar de destaque em um caderno de cultura do maior jornal do país. Antes que alguém me acuse sobre o uso desta palavra digo que faço-lhe justiça ao substantivo feminino: “adoro o termo puta. Ele precisa ser apropriado pelas minhas colegas, inclusive porque é um dos maiores xingamentos que usam contra os nossos filhos”, disse à jornalista.

 

A primeira reflexão me levou à questão da inversão, na destruição de valores. Há um uso contínuo e calculado no culto da contradição. Esta prática foi estudada e estimulada pelo ideólogo italiano Antonio Gramsci. Em 1980 comprei um livro deste autor que foi muito importante na minha vida e que exerceu enorme influência, o “Os Intelectuais e a Organização da Cultura”. Um capítulo, em especial, me chamou a atenção: “Jornalismo” (capítulo III, página 160). Gramsci escreve neste livro que é “dever da atividade jornalísticas (em suas várias manifestações) seguir e controlar todos os movimentos e centros intelectuais que existem e se formam num país”.

 

Gramsci considerava, com razão, a enorme importância da mídia. A estratégia era  incluir ativistas políticos de esquerda dentro das células “capitalistas” com o objetivo de, uma vez, instalados, minar a sua base – princípios, valores morais. religiosos e culturais. A estratégia foi brilhante: instituir a prática de inversão de valores. E desmoronar o capitalismo, por dentro, instituindo em seguida uma nova ordem, redentora, moralizadora.

 

Na cultura pós-moderna há também  a manipulação pelo paradoxo. Tudo no contraditório é fácil, rápido e indolor. A exploração do contraditório é chique. Causa impacto imediato em todas as pessoas incapazes de pensar por si próprias, ou seja, a maioria (os “Hommer Simpsons”, do apresentador William Bonner). Tem a capacidade mágica de reunir, em um só golpe, toda a patuléia ignara em torno de uma causa. Fraser Seitel, em “The Practice of PR” chama esta camada de “unnkown men”, a maioria silenciosa.

 

Quem trabalha com comunicação sabe a importância de cada mídia. Jornal, por exemplo, é uma mídia muito adequada para a formação de opinião (via colunistas) e para a venda de produtos de varejo. Revistas? São ótimas para lançamento e consolidação de marcas. Quer posicionar a sua marca? Faça revistas. Não é à toa que acompanhamos um boom de revistas customizadas (ou seja, revistas produzidas por jornalistas que levam o nome de marcas famosas). E livros? É mídia para que?

 

Livros são um dos melhores instrumentos de posicionamento em comunicação que conheço. Ajudam a criar ou consolidar uma reputação, palavra que vem do latim, reputatione. Significa a opinião ou avaliação dos outros – sobre uma pessoa, uma marca ou empresa.

 

Há uma série de variações interessantes da, digamos, raiz putar: putativo, alguém que foi reputado. Imputar é atribuir a alguém uma responsabilidade ou uma imagem. Ou deputar, enviar alguém a um lugar (deputado é, portanto, um representante). E puttanesca?  Um prato à moda das putas – no mínimo um prato picante! Intrigante: o que reputação, putativo, deputado e putanesca têm em comum?

 

Do ponto de vista religioso, aliás, de qualquer ponto de vista, é estranho vender-se (ou comprar um corpo) por dinheiro. Todos sabem que não podemos abrir mão de nossos princípios mais verdadeiros por um punhado de trocados, jóias ou outros tipos de luxos. Quem vende a alma para o diabo é resgatado ainda em vida. Mas em vida podemos purgar os nossos pecados, o que significa lutarmos contra o dualismo (que nos fustiga) e trilharmos em terreno árido em busca da integridade redentora.

 

Tenho de admitir que Gabriela Leite conseguiu o que queria. Agora a ex-puta tem de fato uma reputação. A sua vida é um exemplo de integridade, do ponto de vista de comunicação. Assina como “prostituta aposentada”, escreve um livro sobre a sua vida e concede entrevistas nesta condição. Elaborou, talvez sem querer, um belíssimo plano de RP e utilizou todas as técnicas e instrumentos de comunicação para transmitir a mensagem. A sua reputação é um espelho exato desta vida.