Alerta: fumar é ótimo e faz mal à saúde

25/03/2009

A vida é um argumento. Christopher Buckley é romancista e escritor, colaborador regular do The New York Times (evito o chavão “o jornal mais prestigiado do mundo”). Escreveu um livro chamado “Obrigado por Fumar” (Thank You For Smoking), que virou filme dirigido por Jason Reitman, cotado em 7.9 no site www.imdb.com.

Na época em que o filme foi exibido aqui no Brasil comprei o livro e falei desta obra de maneira entusiástica para muitos amigos RPs. Conta a estória de Nick Taylor, lobista da Academia de Pesquisa sobre o Tabaco (APT ou simplesmente Academia). Seu cargo é de “vice presidente sênior de comunicação”, cabendo a ele o desenvolvimento e operação de estratégias de defesa de um setor que movimenta bilhões de dólares nos EUA.

Nick Taylor é um spin doctor, um profissional brilhante. O começo do livro já mostra a que veio. É convidado a participar do programa de TV “Oprah Winfrey Show”, cujo tema é “publicidade de cigarros e sua influência sobre crianças e adolescentes”. Detalhe: é o único representante da indústria em meio a vários debatedores raivosos, ligados à ONG “Pulmões Sadios” e um adolescente, careca, vítima de câncer de pulmão.

No começo ele é figurativamente linchado e quase exterminado pelo pelotão de fuzilamento armado pelos debatedores, Oprah incluída. Quer cena mais pungente em uma TV que uma criança careca, vítima de câncer de pulmão, doença talvez causada pelo fumo? O clima da discussão muda quando Nick faz mostrar a todos, inclusive o rapaz canceroso, que ele é vítima da “espetacularização” (desculpe o neologismo). Nick apresenta-se compungido com o rapaz, não desmente que ele pode ter contraído a doença por causa do fumo. Mas desnuda o espetáculo, demonstra toda a podridão da fogueira de vaidades que se tornou o debate.

E ataca: o rapaz virou “coisa”, foi reificado por políticos e ONGs que exploram e alimentam um prazer sádico em explorar o sofrimento alheio. Mira em um político em especial, autoridade federal, e mostra claramente como este caso o ajudou a “catapultar” sua ascensão política. Quem faz TV sabe como é fácil manipular, usar o elemento humano para fazer chorar os outros – é só olhar os monitores de audiência, que sobem à medida que o drama se desenrola. Nick muda completamente o jogo e, por meio de técnica de debate, sai como acusador. Brilhante.

Afora as suas sacadas geniais, lembro-me de ter adorado a idéia de um grupo de amigos que se reunia todas as semanas em um restaurante e revelava, intramuros, as suas técnicas, táticas e estratégias, quase que um pequeno fórum privado de debates. Batizaram este grupo de Mod Squad, abreviatura de Merchants of Death, mercadores da morte (e não à série de TV, famosa nos anos 60 no Brasil). Aqui em S. Paulo, também me reúno regularmente com uma pequena confraria de RPs e profissionais de comunicação corporativa, liderados pelo Maurício Machado e pela Fernanda Lopes. Uma confraria do bem, pela vida, diga-se.

Alguns amigos já trabalharam na indústria de tabaco aqui no Brasil. Soube recentemente que um profissional recebeu uma proposta “irrecusável” para trabalhar em Curitiba, mas recusou-a, por questões morais. Em outra ocasião alguém me disse que um tal diretor de uma grande empresa não seria “do bem”, uma vez que já havia trabalhado em uma indústria de cigarros. “Ele não tem um bom DNA”, decretou.

Qual é o prazer de fumar? Os índios estão entre os primeiros inventores deste artefato que utiliza plantas encontradas na natureza. O mecanismo “humano” é simples. Há partes do corpo que são extremamente irrigadas, como as mucosas. São órgãos sensíveis a sabores e mudanças de temperatura, “desenhados” (entre outras coisas … e viva Deus) para receber massagens e fricções – beijos e relações sexuais, por exemplo. A inalação de fumaça nestas áreas traz um impacto imediato e prazeiroso, que quando repetido à exaustão traz conforto e estímulos. Em suma: fumar é ótimo e faz mal à saúde. Aliás, tudo o que é bom faz mal à saúde (no livro, Nick Taylor diz em tom de blague que as autoridades americanas deveriam colocar um alerta em todos os queijos gordurosos franceses: “este queijo pode aumentar seu colesterol, causar infarto e matar”).

Uma outra coisa que me chamou a atenção neste livro – e no filme – é a influência de Hollywood nas crianças e adolescentes. Uma das ações recomendadas por Nick Taylor à Academia é a realização de ações de “product placement” (que no Brasil é chamado de “merchandising”) em filmes estrelados por atores famosos.

Pesquisa recente realizada pela Universidade da Califórnia chamada “Smoking Presentation Trends in US Movies” (leiam o jornal Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada, página E1, de 22 de março de 2009), revela que o fumo está em 60% dos filmes dos grandes estúdios em 2008. A pesquisa analisou 1.769 títulos, ou seja, é bastante abrangente. A matéria é bem interessante e rica. Traz informações de que até filmes de Walt Disney traziam personagens fumantes (a raposa João Honesto, o gato Gedeão e os meninos da Ilha dos Prazeres, em “Pinóquio”, de 1940).

Eu não fumo. Tive experiências com o cigarros quando fui adolescente. Nos anos 60 e 70 fumar era obrigatório para crianças do sexo masculino. Quem não fumasse era chamado de “maricas” (homossexual). Homem que era homem, fumava. Apesar de adorar o cigarro, o cigarro não gostava de mim (da minha garganta, principalmente). Adotei um estilo de vida mais saudável, na alimentação e muita prática de esportes. O meu pai faleceu aos 57 anos. Fumava quatro maços por dia. Lembro-me que ele parecia o meu avô, quando morreu. A minha filha, de 19 anos, fumava. Ficou internada recentemente 11 dias por causa de uma pneumonia grave. Parou, graças a Deus.

As estatísticas são sempre manipuláveis. Mas há números que são inquestionáveis. Por exemplo: quantas pessoas nasceram em 2008? Quantas morreram? Qual foi a causa mortis? Regularmente consulto um site que traz dados sobre mortes relacionadas à doenças no mundo, o International Classification of Diseases (ICD) – http://www.who.int/classifications/icd/en/. Entre os fatores de risco, aparecem cinco fatores, nesta ordem: álcool, nutrição, obesidade, tabaco e água/saneamento básico. Alguém me disse que esteve com um RP da indústria de tabaco brasileira e que ouviu dele o argumento de que “o Japão é um dos países de melhor qualidade de vida e de longevidade. Mesmo assim é o país onde há maior consumo de cigarros do mundo”. Bem, a única coisa que eu sei é que todos morrerão. Esta é uma verdade apodítica.

Mesmo com todo este histórico, sou defensor radical do direito das pessoas fazerem o que querem dos seus corpos – “habeas corpus”, que em latim significa “que tu tenhas o teu corpo”. Acho que a indústria tem todo o direito de existir, bem como a indústria de bebidas. Considero excessiva e eleitoreira a quantidade de leis que querem regular tudo. Claro, deve haver restrição à publicidade de produtos deste tipo. Mas não me venham dizer o que eu posso ou não posso fazer.

Argumentos são as melhores armas de um bom RP. Em uma estratégia de comunicação, deveriam estar sempre em primeiro lugar. Sempre digo que o porta voz de uma empresa não consegue controlar o processo de entrevistas e edição. A única coisa que consegue controlar é a mensagem. Mas isto é assunto para um outro artigo.

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2 Respostas to “Alerta: fumar é ótimo e faz mal à saúde”

  1. Pinduca Says:

    Pai, adorei o texto.
    Acho que nunca havia lido nenhum seu, escreve muito bem.. Acho que em forma de texto consigo acreditar muito mais em seus argumentos (hahaha, isso considerando o fator de você ser meu pai!!)
    beijos da pinduca!!

  2. ellenita Says:

    Ricardo,
    acho esse livro/filme indispensável para qualquer RP – não pelo cigarro – óbvio, mas pela argumentação de Nick Taylor e suas sacadas.
    Abraço,


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